Para escapar do Serviço de Trabalho Obrigatório (STO), Jules Carmelot deixa a cidade de Cherbourg e vai se esconder em uma pequena fazenda familiar isolada, situada no município de Yvetot-Bocage (localizado ao norte da península do Cotentin), a alguns quilômetros de Valognes. O jovem assiste, assim, às sucessivas passagens de aviões, que dão a entender que haverá um desembarque iminente. Na manhã de 5 de junho, os primeiros refugiados afluem para a fazenda em busca de comida e segurança. Escrito em 1983, este curto testemunho pode, hoje, ser lido nos arquivos do Memorial de Caen, na cota TE 393. O título "Peça a eles dois francos" foi adicionado por nós.
O dia 6 de junho de 44 começou para mim no dia 5, lá pelas 20 horas.
Um barulho de motor, eu levanto a cabeça e vejo um avião de caça relativamente baixo, eu falo para mim mesmo, num determinado momento, esse Spitfire1 faz o que quer2, depois some.
A prima do meu pai, que morava em Yvetot-Bocage (La Lande des Millières), um local afastado, tinha me escondido desde os meus dezoito anos em troca do pagamento de uma pensão. Sem isso, teria sido o STO e a Alemanha. É claro que na liberação eu não tinha mais nenhum centavo.
Na noite do dia 5, como nas outras, sopa e cama. Eu ouvi tocar meia-noite e [ouvi] um barulho distante diferente das outras noites. Foi lá pelas duas horas da manhã que um barulho pesado de motor me acordou, comparável ao das formações das Fortalezas Voadoras3 que destruíam as rampas de lançamento dos V14.
Eu me levantei e olhei através da janela, vi um avião cair em chamas. Depois, as sombras chinesas de aviões que pareciam atrair outros, tudo isso em meio a relâmpagos. Tiros preocupantes. Isso durou cerca de duas horas.
Artilharia ininterrupta, assobio das granadas que caem em qualquer lugar, semeando o pânico nas tropas inimigas e, em seguida, o lançamento dos paraquedistas bem dispersos. Finalmente, o dia nasce e resta apenas um barulho bem forte ao longe.
De manhã, os primeiros refugiados chegam e eu vi minha esposa pela primeira vez, sua casa tinha sido atingida por uma granada durante a noite.
Em dois dias chegaram uns vinte. O problema principal é o dos provimentos, além do leite e da farinha, não tinha muita coisa, mas deu certo. À noite era preciso ordenhar para ter leite, [com] a moça da casa e sua prima (que depois virou minha esposa) pegamos um caminho no campo bem escondido, tudo vai bem, mas na volta ficamos cara a cara com dois boches5 armados até os dentes, que também procuravam leite. Eles apontam uma pistola-metralhadora para mim e pedem o leite, eu obedeço, pego o balde e coloco o leite nas tigelas deles, a senhorita MH, muito avara, me diz [:] [“]peça a eles dois francos[”].
Eu garanto que não era a hora de fazer brincadeiras, eu digo a ela, eu vou lhe dar suas quarenta pratas [,] e, de volta à fazenda, a rica herdeira pegou esse dinheiro que tinha salvado a pele de um órfão.
O exército americano se aproximava pouco a pouco, alguns Teutões6 passeavam com dois ou três prisioneiros (presos de guerra).
Nos quinze dias seguintes até à nossa libertação, eu vi Montebourg queimar e a destruição de Valognes7.
Quando eu pude voltar a Cherbourg depois de muitas tribulações, vi minha casa meio demolida e saqueada (por quem?8).
Eu ia fazer vinte anos, minha tutora assinou os papeis para eu me alistar. Eu voltei liberado do exército Rhin et Danube 9 em 1946, e tudo isso por quê?
Uma história dentre tantas outras.
Uma famosa maldita [história].